Só de pensar que queria ser pintor em Paris. Ideia ridícula, talvez. Mas vender fruta no mercado não é o que mais desejo na vida, ainda que tudo isto tenha a sua magia.
Pego no lápis e no caderno de capa negra. Risco aqui, risco ali...até que o desenho se compõe. Mas nunca ninguém irá vê-los, eu sei.
Finalmente aproxima-se da minha barraca. Diz "Bom dia", mas não com a voz doce de outrora.
Hoje está diferente. Não fala tanto, não sorri tanto. Nem sequer tirou os óculos de sol.
Pergunto-lhe se está tudo bem e as lágrimas começam a escorrer-lhe pelo rosto.
Tento dar-lhe a mão, meio à toa. Ela foge.
Desde aquele dia que o mercado deixou de ser parte da sua rotina. Desde aquele dia que o mercado perdeu a magia que tinha a meus olhos. Foi naquele dia que fugi para Paris.