Acorda a meio da noite sem saber a verdadeira razão da insónia. Pé ante pé chega à cozinha, procurando sem cessar um copo limpo onde possa beber água. Tem andado desleixada. A casa que outrora parecia saída de uma revista de decoração está, definitivamente, de pernas para o ar. Tal como a sua mente. Tal como o seu coração. Irrequieta na solidão onde nada faz sentido, abre calmamente a janela para sentir a brisa na cara. Talvez isso a consiga fazer sentir-se um pouco mais viva.
Melhores dias virão, pensa. Afinal, sempre acreditou que tudo acontece por uma razão!
04 maio 2012
12 abril 2012
O Momento
Depois da tempestade vem a bonança. Mas seria realmente assim? Ele questionava-se vezes sem conta se o deveria ter feito ou se as coisas simplesmente acontecem por um motivo.
A dúvida avassaladora fazia ronronar dentro de si um sentimento de insegurança simplesmente incontrolável, infindável. Fechou os olhos durante breve segundos e o silêncio acolhedor rapidamente o fez recordar o toque da sua pele, o cheiro do seu cabelo, a sinceridade do seu olhar e a pureza do seu sorriso. O buzinar incessante da carrinha de transporte de mercadorias do Sr. Manuel da Mercearia Primavera rapidamente o fez regressar à terra. E ela já ali não estava. Pudera ele fazer o tempo voltar atrás. Mas assim nunca saberia que nada é eterno!
26 dezembro 2011
A vontade perdeu-se algures pelo caminho, fruto da falta de motivação. No peito, uma dor ardente, incessante, impossível de suportar, difícil de controlar.
A comida não tem sabor, as flores ficaram sem cheiro, e o mundo ficou cinzento de um dia para o outro. Os olhos não querem ver, a boca não quer falar, o coração não quer sentir. Mas essa dor não desvanece, não tira folga e não dá descanso.
O tempo não é seu amigo pois tudo o que lhe resta fazer é esperar que o sol volte a nascer, quente e brilhante, como outrora.
29 agosto 2010
A Mansão
- É um som interessante.
- Qual?
- O leve som que se forma quando passo o dedo suavemente pelo copo, sempre em círculo. Quase parece um assobio que desaparece se for demasiado rápida nesta dança entre copo e dedo.
- Sara, já bebeste demais...
- Não. A bebida apenas me faz pensar, parar um pouco, reflectir....
- Como disse, já bebeste demais, não dizes coisa com coisa.
Um breve silêncio invadiu a mansão. As canhotas continuaram a arder na lareira. Os estalidos da madeira a queimar quebravam a ausência de som, ainda que por pouco tempo.
- Sabes André, estou farta de viver nesta vida de mentira, nesta casa de bonecas, nesta mansão onde vivemos os dois e os nossos ecos. Quase nos perdemos aqui. Não aguento mais vestir estas roupas que as pessoas adoram só pelo seu preço. Porquê? São só roupas. Apenas e só, roupas.
Será a seda melhor que o algodão? Oh sim, é. Mas sabes? Prefiro o algodão porque a seda é a luxúria, a vaidade, o inferno. E o algodão... O algodão é a simplicidade, o conforto, a vida que eu tinha e desejo voltar a ter...
- SARA!!! Olha para mim... - André agarra-a pela mão, vira-a na sua direcção, afasta-lhe o cabelo do rosto e olhando-a nos olhos prossegue - Eu só queria dar-te uma vida melhor, dar-te coisas boas, fazer-te feliz. Nunca pensei que estivesses assim, triste, revoltada, infeliz...Desculpa!
No dia seguinte, a mansão da rua 5 tinha um letreiro na entrada. "Vende-se", dizia. Cá fora, no verde jardim, mesmo junto à piscina, uma festa para a vizinhança decorria. Uma pequena mesa com limonada. Rissóis e croquetes eram os petiscos. Acabara-se o champanhe e o fondue. À esquerda, uma balcão improvisado surgia entre a multidão. Roupas e mais roupas em cabides eram vendidas a preços de fazer rir.
André e Sara cumprimentavam os vizinhos, aquelas pessoas simples que viveram três anos na porta ao lado da sua e com quem nunca trocaram uma única palavra.
A festa durou até de madrugada mas a noite fresca pouco ou nada incomodou os presentes, muito menos Sara e André. Essa era uma das coisas boas das camisolas algodão...
- Qual?
- O leve som que se forma quando passo o dedo suavemente pelo copo, sempre em círculo. Quase parece um assobio que desaparece se for demasiado rápida nesta dança entre copo e dedo.
- Sara, já bebeste demais...
- Não. A bebida apenas me faz pensar, parar um pouco, reflectir....
- Como disse, já bebeste demais, não dizes coisa com coisa.
Um breve silêncio invadiu a mansão. As canhotas continuaram a arder na lareira. Os estalidos da madeira a queimar quebravam a ausência de som, ainda que por pouco tempo.
- Sabes André, estou farta de viver nesta vida de mentira, nesta casa de bonecas, nesta mansão onde vivemos os dois e os nossos ecos. Quase nos perdemos aqui. Não aguento mais vestir estas roupas que as pessoas adoram só pelo seu preço. Porquê? São só roupas. Apenas e só, roupas.
Será a seda melhor que o algodão? Oh sim, é. Mas sabes? Prefiro o algodão porque a seda é a luxúria, a vaidade, o inferno. E o algodão... O algodão é a simplicidade, o conforto, a vida que eu tinha e desejo voltar a ter...
- SARA!!! Olha para mim... - André agarra-a pela mão, vira-a na sua direcção, afasta-lhe o cabelo do rosto e olhando-a nos olhos prossegue - Eu só queria dar-te uma vida melhor, dar-te coisas boas, fazer-te feliz. Nunca pensei que estivesses assim, triste, revoltada, infeliz...Desculpa!
No dia seguinte, a mansão da rua 5 tinha um letreiro na entrada. "Vende-se", dizia. Cá fora, no verde jardim, mesmo junto à piscina, uma festa para a vizinhança decorria. Uma pequena mesa com limonada. Rissóis e croquetes eram os petiscos. Acabara-se o champanhe e o fondue. À esquerda, uma balcão improvisado surgia entre a multidão. Roupas e mais roupas em cabides eram vendidas a preços de fazer rir.
André e Sara cumprimentavam os vizinhos, aquelas pessoas simples que viveram três anos na porta ao lado da sua e com quem nunca trocaram uma única palavra.
A festa durou até de madrugada mas a noite fresca pouco ou nada incomodou os presentes, muito menos Sara e André. Essa era uma das coisas boas das camisolas algodão...
02 agosto 2010
O Alpendre
- Acorda, é só um pesadelo!!
Miguel acordara sobressaltado, quase caiu da cama de rede pendurada no alpendre da casa de campo dos seus avós.
Visitava-os todos os anos, na última semana de Julho, e a visita prolongava-se quase até finais de Agosto. O clima lá era maravilhoso: nem muito quente, nem muito frio. Os dias de calor eram sempre acompanhados de uma leve e suava brisa, que fazia esvoaçar os cabelos dourados da vizinha do lado, aquela que fora a única e a primeira a captar a atenção de Miguel.
Miguel olhou em voltam ainda ofegante e desnorteado.
- Calma - disse Camila, a doce rapariga de cabelos dourados e olhos azul vivo que fazia cortar a respiração de todos, ou quase todos, os jovens da aldeia - Foi só um pesadelo, já passou!
Camila segurou-lhe na mão quente e suada. Olhou-o nos olhos um pouco envergonhada, respirou fundo e muito calmamente perguntou com a sua voz meiga:
- Com que sonhaste tu, afinal? Quero dizer... que sonho poderia ser tão mau para te deixar neste estado.
Miguel já calmo retribuiu o olhar. Apertou com um pouco mais de força a mão de Camila, fazendo-lhe suaves festas com o polegar.
- Foi algo quase sem nexo mas que me assustou de morte.
- Sim...? - disse Camila, como se pedisse que continuasse.
- Sonhei que te perdi para sempre, que desaparecias do mapa, que nunca mais podia sentir a tua mão na minha, olhar para os teus doces olhos...como agora. Sonhei que morrias e que assim perdia a oportunidade de te dizer algo que já há muito quero que saibas....
- E isso é...?
- Amo-te!
Camila ficou quieta, espantada, sem palavras, mas sempre com olhos fixos em Miguel.
Miguel continuou, apressadamente e sem jeito:
- ... E pode parecer estranho dizer-te isto sendo tu minha amiga mas amo-te desde a primeira vez que te vi, ou seja, desde os 12 anos por aí, e desde então que só te quero a meu lado, nem que seja somente como amiga, eu....
Nada mais disse. Não porque não quisera, não porque seria inútil. Somente porque não pudera, tamanho foi o beijo apaixonado que terminou a conversa.
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