12 abril 2012

O Momento

Depois da tempestade vem a bonança. Mas seria realmente assim? Ele questionava-se vezes sem conta se o deveria ter feito ou se as coisas simplesmente acontecem por um motivo.
A dúvida avassaladora fazia ronronar dentro de si um sentimento de insegurança simplesmente incontrolável, infindável. Fechou os olhos durante breve segundos e o silêncio acolhedor rapidamente o fez recordar o toque da sua pele, o cheiro do seu cabelo, a sinceridade do seu olhar e a pureza do seu sorriso. O buzinar incessante da carrinha de transporte de mercadorias do Sr. Manuel da Mercearia Primavera rapidamente o fez regressar à terra. E ela já ali não estava. Pudera ele fazer o tempo voltar atrás. Mas assim nunca saberia que nada é eterno!

26 dezembro 2011

A vontade perdeu-se algures pelo caminho, fruto da falta de motivação. No peito, uma dor ardente, incessante, impossível de suportar, difícil de controlar.
A comida não tem sabor, as flores ficaram sem cheiro, e o mundo ficou cinzento de um dia para o outro. Os olhos não querem ver, a boca não quer falar, o coração não quer sentir. Mas essa dor não desvanece, não tira folga e não dá descanso.
O tempo não é seu amigo pois tudo o que lhe resta fazer é esperar que o sol volte a nascer, quente e brilhante, como outrora.

29 agosto 2010

A Mansão

- É um som interessante.
- Qual?
- O leve som que se forma quando passo o dedo suavemente pelo copo, sempre em círculo. Quase parece um assobio que desaparece se for demasiado rápida nesta dança entre copo e dedo.
- Sara, já bebeste demais...
- Não. A bebida apenas me faz pensar, parar um pouco, reflectir....
- Como disse, já bebeste demais, não dizes coisa com coisa.

Um breve silêncio invadiu a mansão. As canhotas continuaram a arder na lareira. Os estalidos da madeira a queimar quebravam a ausência de som, ainda que por pouco tempo.

- Sabes André, estou farta de viver nesta vida de mentira, nesta casa de bonecas, nesta mansão onde vivemos os dois e os nossos ecos. Quase nos perdemos aqui. Não aguento mais vestir estas roupas que as pessoas adoram só pelo seu preço. Porquê? São só roupas. Apenas e só, roupas.
Será a seda melhor que o algodão? Oh sim, é. Mas sabes? Prefiro o algodão porque a seda é a luxúria, a vaidade, o inferno. E o algodão... O algodão é a simplicidade, o conforto, a vida que eu tinha e desejo voltar a ter...


- SARA!!! Olha para mim... - André agarra-a pela mão, vira-a na sua direcção, afasta-lhe o cabelo do rosto e olhando-a nos olhos prossegue - Eu só queria dar-te uma vida melhor, dar-te coisas boas, fazer-te feliz. Nunca pensei que estivesses assim, triste, revoltada, infeliz...Desculpa!

No dia seguinte, a mansão da rua 5 tinha um letreiro na entrada. "Vende-se", dizia. Cá fora, no verde jardim, mesmo junto à piscina, uma festa para a vizinhança decorria. Uma pequena mesa com limonada. Rissóis e croquetes eram os petiscos. Acabara-se o champanhe e o fondue. À esquerda, uma balcão improvisado surgia entre a multidão. Roupas e mais roupas em cabides eram vendidas a preços de fazer rir.
André e Sara cumprimentavam os vizinhos, aquelas pessoas simples que viveram três anos na porta ao lado da sua e com quem nunca trocaram uma única palavra.
A festa durou até de madrugada mas a noite fresca pouco ou nada incomodou os presentes, muito menos Sara e André. Essa era uma das coisas boas das camisolas algodão...

02 agosto 2010

O Alpendre

- Acorda, é só um pesadelo!!

Miguel acordara sobressaltado, quase caiu da cama de rede pendurada no alpendre da casa de campo dos seus avós.
Visitava-os todos os anos, na última semana de Julho, e a visita prolongava-se quase até finais de Agosto. O clima lá era maravilhoso: nem muito quente, nem muito frio. Os dias de calor eram sempre acompanhados de uma leve e suava brisa, que fazia esvoaçar os cabelos dourados da vizinha do lado, aquela que fora a única e a primeira a captar a atenção de Miguel.

Miguel olhou em voltam ainda ofegante e desnorteado.

- Calma - disse Camila, a doce rapariga de cabelos dourados e olhos azul vivo que fazia cortar a respiração de todos, ou quase todos, os jovens da aldeia - Foi só um pesadelo, já passou!

Camila segurou-lhe na mão quente e suada. Olhou-o nos olhos um pouco envergonhada, respirou fundo e muito calmamente perguntou com a sua voz meiga:

- Com que sonhaste tu, afinal? Quero dizer... que sonho poderia ser tão mau para te deixar neste estado.

Miguel já calmo retribuiu o olhar. Apertou com um pouco mais de força a mão de Camila, fazendo-lhe suaves festas com o polegar.

- Foi algo quase sem nexo mas que me assustou de morte.

- Sim...? - disse Camila, como se pedisse que continuasse.

- Sonhei que te perdi para sempre, que desaparecias do mapa, que nunca mais podia sentir a tua mão na minha, olhar para os teus doces olhos...como agora. Sonhei que morrias e que assim perdia a oportunidade de te dizer algo que já há muito quero que saibas....

- E isso é...?

- Amo-te!

Camila ficou quieta, espantada, sem palavras, mas sempre com olhos fixos em Miguel.

Miguel continuou, apressadamente e sem jeito:

- ... E pode parecer estranho dizer-te isto sendo tu minha amiga mas amo-te desde a primeira vez que te vi, ou seja, desde os 12 anos por aí, e desde então que só te quero a meu lado, nem que seja somente como amiga, eu....

Nada mais disse. Não porque não quisera, não porque seria inútil. Somente porque não pudera, tamanho foi o beijo apaixonado que terminou a conversa.


01 julho 2010

O fim

Não vou abrir, já disse.
Por favor, não insistas. Dá meia volta e continua o teu percurso. Percorre todas as casas da minha rua, desde o meu número. Sete, cinco, três, um. Deixa de pisar o meu tapete da entrada, aquele que a minha mãe insistiu que eu comprasse para que não me esquecesse de limpar as galochas vermelhas ao entrar, depois de mais uma tarde de jardinagem, como costumava fazer em sua casa, quando lá morava.
Parece que foi ontem que de lá sai. E desde então tudo piorou. Deixaste de me amar, aos poucos. Deixaste o nosso amor cair e quebrar-se, lentamente. E agora assim estamos, separados.
Insistes. Insistes de tal modo que amanhã mesmo serei obrigada a mudar de campainha por já estar farta de ouvir sempre o mesmo som. Porque não páras? Porque não finges que sai da cidade, e páras?
Não, não me ligues. Não me ligues pois não é solução. Não irei atender. Não posso atender. Não quero ouvir mais juras de amor, não quero que digas mais uma vez que vai tudo voltar ao que era. Não quero que me mintas na cara.

E de repente, o silêncio apoderou-se do número 9 da Rua das Laranjeiras, a campainha teve descanso. Alice sentou-se no cadeirão vermelho que se encontrava junto à lareira. Evitou olhar para os retratos que estavam sobre a mesma, mas mesmo assim foi inevitável. Os olhos ficaram vermelhos, as lágrimas começaram a cair, passando calmamente pelas maças do rosto e caindo delicadamente no chá de camomila que habitualmente bebia.
Só assim estaria pronta para a visita de amanhã. Só assim estaria pronta para mais uma sinfonia irritante de campainhas e telefones. Só assim conseguiria lidar melhor com a perda do melhor sentimento que alguma vez tivera.