01 julho 2010

O fim

Não vou abrir, já disse.
Por favor, não insistas. Dá meia volta e continua o teu percurso. Percorre todas as casas da minha rua, desde o meu número. Sete, cinco, três, um. Deixa de pisar o meu tapete da entrada, aquele que a minha mãe insistiu que eu comprasse para que não me esquecesse de limpar as galochas vermelhas ao entrar, depois de mais uma tarde de jardinagem, como costumava fazer em sua casa, quando lá morava.
Parece que foi ontem que de lá sai. E desde então tudo piorou. Deixaste de me amar, aos poucos. Deixaste o nosso amor cair e quebrar-se, lentamente. E agora assim estamos, separados.
Insistes. Insistes de tal modo que amanhã mesmo serei obrigada a mudar de campainha por já estar farta de ouvir sempre o mesmo som. Porque não páras? Porque não finges que sai da cidade, e páras?
Não, não me ligues. Não me ligues pois não é solução. Não irei atender. Não posso atender. Não quero ouvir mais juras de amor, não quero que digas mais uma vez que vai tudo voltar ao que era. Não quero que me mintas na cara.

E de repente, o silêncio apoderou-se do número 9 da Rua das Laranjeiras, a campainha teve descanso. Alice sentou-se no cadeirão vermelho que se encontrava junto à lareira. Evitou olhar para os retratos que estavam sobre a mesma, mas mesmo assim foi inevitável. Os olhos ficaram vermelhos, as lágrimas começaram a cair, passando calmamente pelas maças do rosto e caindo delicadamente no chá de camomila que habitualmente bebia.
Só assim estaria pronta para a visita de amanhã. Só assim estaria pronta para mais uma sinfonia irritante de campainhas e telefones. Só assim conseguiria lidar melhor com a perda do melhor sentimento que alguma vez tivera.

27 junho 2010

Mercado.

Passou mais uma vez por mim na rua, como já é costume todas as manhãs de sexta-feira. O mercado abre e ela, tal como eu, é das primeiras pessoas a chegar. O cheiro da fruta fresca e do pão acabado de fazer ajuda-nos a mover o corpo da cama até aqui. Mas ela não tem nenhuma obrigação. Já eu...
Só de pensar que queria ser pintor em Paris. Ideia ridícula, talvez. Mas vender fruta no mercado não é o que mais desejo na vida, ainda que tudo isto tenha a sua magia.
Pego no lápis e no caderno de capa negra. Risco aqui, risco ali...até que o desenho se compõe. Mas nunca ninguém irá vê-los, eu sei.
Finalmente aproxima-se da minha barraca. Diz "Bom dia", mas não com a voz doce de outrora.
Hoje está diferente. Não fala tanto, não sorri tanto. Nem sequer tirou os óculos de sol.
Pergunto-lhe se está tudo bem e as lágrimas começam a escorrer-lhe pelo rosto.
Tento dar-lhe a mão, meio à toa. Ela foge.
Desde aquele dia que o mercado deixou de ser parte da sua rotina. Desde aquele dia que o mercado perdeu a magia que tinha a meus olhos. Foi naquele dia que fugi para Paris.

23 maio 2010

A Carta

Consigo sentir o cheiro dela a léguas de distância. Nada mais parece existir além dela. Seus olhos, cor da água, translúcidos. Seu cabelo é seda em minhas mãos, seu corpo a perfeita escultura a meus olhos.

23 de Junho de 1953. Triste data esta que anuncio. Perdi seu cheiro, seus olhos, seu cabelo, seu corpo. Perdi toda a sua luz. Perdi os suspiros, os sorrisos, as lágrimas. Os desabafos e preocupações, nunca mais as poderei ouvir pois sua voz agora é uma simples memória.

Sei que não compreenderão. Sei que nunca irão perdoar esta decisão tola mas sábia. Mas ela está tomada, não há volta a dar. Meu testamento, deixo-o na primeira gaveta da velha secretária da sala de chá.
Apenas quero que entendam que o que fiz foi por amor pois vida sem amor não é vida. E assim me entrego à morte. Talvez assim volte a encontrar a felicidade, a seu lado, novamente.

21 maio 2010

O Adeus

-Adeus!

Após um beijo caloroso, virou costas e partiu. Nada ficou a não ser a tristeza. Na memória, o seu bafo quente toca-me levemente durante a noite, onde amarrados um ao outro dormimos, faça frio, faça calor.
A gargalhada sonora ainda reside nos meus ouvidos. As piadas outrora ditas ainda me fazem rir. Mas ele não está aqui, junto a mim.
E ainda que a ausência seja curta a olhos alheios, a mim parece não ter fim.
Resta-me esperar. Esperar enquanto durmo sozinha, amarrada ao travesseiro onde em dias dormiste, para não me sentir só, pelo menos para sentir que estás um pouco comigo.

15 maio 2010

A música leva-me a outros lugares, impede-me de pensar em tudo aquilo que não me faz sorrir, soltar uma enorme gargalhada, pular de satisfação.
A melodia soa. Os pés saem do chão. A mente voa e eu deixo-me levar. Ando por aí. Por aí, algures. Talvez um dia decida parar de me perder em mundos imaginários onde nada me aborrece. Mas eu sei que isso nunca acontecerá. Nunca vou largar este pedaço de vida só minha, o meu lugar perfeito, o meu céu privado onde só eu posso voar livremente. Porque aqui em cima é tudo bem mais bonito...